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Entrevista: Christopher H. Estabeleceu Nova Forma de Compreensão do Divino, Diz Johnny Bernardo


Johnny Bernardo, do Instituto de Pesquisas Religiosas, INPR, comenta a morte do polêmico jornalista Christopher Hitchens, autor do livro 'Deus não é grande', vítima de um câncer no esôfago. O autor, que morreu no dia 15 de dezembro, é considerado um dos intelectuais mais polêmicos e influentes nos últimos 30 anos.

Durante seus 62 anos de vida, ele foi visto como um dos representantes mais importantes do novo ateísmo, tendo sido frequentemente referido como um dos quatro "Cavaleiros do Apocalipse", juntamente com os ateístas Richard Dawkins, Sam Harris e Daniel Dennett.

Christopher Hitchens definiu-se como um crente nos valores filosóficos do Iluminismo, para quem a livre expressão e a investigação científica deveriam substituir a religião como meio de ensinar ética e definir a civilização humana.

Para Johnny Bernardo, o autor estabeleceu uma nova forma de compreensão do divino e trouxe discussão à um tema crucial não somente para a existência humana, mas para todas as formas de crenças e religiões. Confira sua entrevista exclusiva ao The Christian Post:

CP: Na sua opinião, qual foi o impacto que Christopher Hitchens teve na sociedade?

Johnny Bernardo: Depois de Stephen Hawking, Hitchens foi um dos mais destacados defensores do ateísmo. Hitchens se diferencia pelo fato de ter desenvolvido uma longa e "brilhante" carreira jornalística - tendo, dessa forma, uma linguagem e público diferenciado. Sua forma de expor o tema - carregada de sarcasmo e desprezo - constitui-se num dos fatores de seu "sucesso". Semelhante postura crítica, apoiada na crescente onda ateísta e secular, ganhou amplo destaque nos países ocidentais. Apesar de suas contribuições na compreensão dos mecanismos da sociedade contemporânea, Hitchens pecou ao desferir seu furor contra judeus, cristãos e demais "crentes em Deus". Sua formação socialista explica em parte sua postura autoritária e antirreligiosa.

CP: Qual é a contribuição dele para as pessoas?

Johnny Bernardo: Do ponto de vista acadêmico, Hitchens estabeleceu uma nova forma de compreensão do divino. Sua abordagem, apesar de antirreligiosa, possuía todas as características de intelectualidade. Há uma contribuição no sentido de trazer a discussão um tema crucial não somente para a existência humana, mas para todas as formas de crenças e religiões. Vejo como sadia a tentativa do ser humano em compreender determinados aspectos do espaço e do tempo, embora nem todos tenham o mesmo objetivo ou visão. No mais é válida a busca pelo conhecimento, desde que pautada em parâmetros éticos e legais.

CP: Como os religiosos devem se portar diante da sua influência por meio de suas publicações? é uma leitura aconselhável?

Johnny Bernardo: Com muita cautela e, ao mesmo tempo, análise crítica dos fatos. Todas as leituras são aconselháveis desde que o leitor tenha consciência e capacidade de identificar pontos que entrem em desacordo com sua fé e/ou parâmetros morais da sociedade contemporânea, como honestidade, compromisso, fidelidade etc.

CP: Quando uma pessoa conhecida morre, cria-se um destaque na mídia. Como os pais devem explicar para seus filhos que uma pessoa com opiniões tão controversas à religião teve tanta importância histórica?

Johnny Bernardo: é algo natural. Diversos cantores continuam vivos na memória dos fãs mesmo após suas mortes. O exemplo mais recente é da cantora britânica Amy Winehouse, cuja vida, desregrada e despreocupada, possui diversos admiradores ao redor do mundo. Há outros exemplos, como o de Michael Jackson, cuja imagem continua presente nos mais diversos meios de comunicação e de publicidade.

São personalidades cujas histórias foram marcadas por polêmicas, mas que possuem uma importância histórica (pelo menos sentimental, para algumas centenas de pessoas). O mesmo acontece no meio intelectual e religioso. Os pais devem ser francos ao citar tais indivíduos, sem deixar de lado os pontos positivos e negativos principais. Os filhos não devem ser privados de qualquer que seja o conhecimento ou informação.


The Christian Post / INPR Brasil




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