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Capas


A seguir, três de nossas principais colaborações à revista Apologética Cristã. 


2012, estamos vivendo os últimos dias?
por Johnny Bernardo

Em algum lugar do deserto de Mojave uma construção chama a atenção. Com a aparência de uma garagem, o local não despertaria a atenção não fosse pelo fato de que, a cinco metros de profundidade, abriga uma série de repartições. Após descer dois lances de escadas, o visitante se depara com uma porta de 3.000 quilos e é recebido por um senhor com um sorriso no rosto que lhe pergunta: “Você tem família?” Ao adentrar o recinto, o visitante é conduzido por um corredor que o leva a um salão principal de onde é possível acessar alguns cubículos – pequenos cômodos mobiliados com que há de melhor no mercado de decoração e utilidades domésticas. Cozinha, quarto, banheiro – tudo que há numa casa convencional acrescida de uma série de outras comodidades, como ar – condicionado. O bunker conta também com posto médico, teatro e sala de ginástica.

Projetado inicialmente como um centro de emergência do governo, a área de 13.000 mil metros quadrados foi adquirida da TSG Investimentos pelo empresário Robert Vicino. Objetivo: construir abrigos antiapocalipse. Para garantir um espaço, um casal tem de desembolsar cerca de 100 mil dólares e 25 mil para cada filho que tiver. Parece caro? Não é, se comparado com a promessa de “salvação”, oferecida pela Vivos – empresa que administra os bunkers. O tempo de permanência nos bunkers será de apenas um ano – período em que os associados permanecerão livres dos males que assolam a Terra. Também é o tempo previsto para duração do estoque de comida e bebida. Como sobreviverão depois? Somente Deus sabe, porque a empresa ainda não apresentou uma proposta viável – e não há. Se, digamos, a Terra for atingida por um meteoro e a luz do sol bloqueada por meses, dificilmente haverá condições de vida na superfície. Mas a empresa não dá bola para isso. Tanto é que está investindo pesado na exportação do modelo. Seu objetivo é criar uma rede mundial de bunkers.

Foi nos anos 80 que Vicino passou a se interessar pelo assunto, após ter acesso a um exemplar do calendário maia. Conta que sentiu um pressentimento angustiante e que a sua primeira ação foi procurar uma mina que servisse como abrigo subterrâneo. Não conseguiu. Somente em 2008 daria inicio ao projeto, ao adquirir da TSG Investimentos o bunker de Bristow, Califórnia. Há outros em desenvolvimento, como os bunkers de Nebraska e Indiana e projetos para outros nos EUA e Europa. Questionado sobre suas crenças, Vicino declarou ser cristão e que ao criar o Vivos não tinha objetivos religiosos. “Não tem nada a ver com o Arrebatamento ou que virá após ele, a tribulação. Eu sou um cristão. Nasci católico e acredito firmemente em Deus, mas não creio nessas coisas”, declarou a um jornal de Nova York. Vicino menciona ainda os evangélicos como seus maiores opositores. “Eles dizem não precisar de abrigos subterrâneos… que sua fé em Jesus lhes salvará.” Crente ou não, Vicino deu o ponta – pé inicial para uma corrida mundial rumo ao interior da Terra. Uma empresa espanhola entrou na onda e já possui cerca de duzentos sócios que aguardam a conclusão de projetos nas serras de Madri, Granada e Aragão.

Dos bunkers para as crenças religiosas e a exploração mercadológica do tema, o fim do mundo está dando o que falar. Popularizada pelas superproduções de Hollywood, com filmes como Armagedom, Núcleo e 2012, o fim do mundo passou a integrar o cotidiano das pessoas, motivando discussões em redes sociais, grupos de estudo, igrejas e programas humorísticos. Até mesmo a cantora americana Britney Spears aproveitou a onda para ganhar mais alguns trocos. Gravado em Los Angeles, o vídeo “Till The World Ends” (Até o fim do mundo, em tradução livre) descreve um cenário apocalíptico e em meio a ele a pop star cantando. Se para a cantora o mais importante é curtir o fim do mundo, para a marca de desodorantes AXE é necessário também atravessá – lo em bom estilo – feliz fim do mundo, traz o comercial AXE 2012. Parece brincadeira? É, pode ser, mas e daí – o mundo hoje não é muito diferente de Sodoma e Gomorra. Maias, sumérios, nostradamus, seitas apocalípticas, oportunistas os mais diversos compõem o cardápio de opções que a humanidade tem acesso quase que diariamente. Veja agora as principais profecias e interpretações com base em 2012 e as devidas ressalvas bíblicas – lembrando que o fim do mundo não é um erro em si, mas um evento que pode ser encarado de diversas formas e maneiras. Boa viagem!

Assim diz o profeta


As profecias apocalípticas, comuns entre os séculos XVIII e XXI, primeiro na América e depois na Europa, e recentemente trazidas à discussão com as interpretações em torno do calendário maia, são ainda mais remotas do que se pensa. É na Antiguidade que começam a pipocar às primeiras tentativas de se conhecer o futuro. Os meios empregados eram numerosos e envolviam práticas comuns a várias culturas. Na Grécia, os oráculos. Em Roma, os Livros Sibilinos. Cada sociedade da época procurava, a sua maneira, conhecer seu próprio futuro e o futuro em geral.

Na Idade Média nada menos que 140 profecias foram produzidas a partir de conventos e descreviam situações diversas, como pequenas calamidades e morte de personagens conhecidos. É entre os séculos XII e XVI, entretanto, que as profecias ganham um novo rumo ao incorporar temas como a vinda do Anticristo e o final dos tempos. Um jovem francês, de família pobre e dado aos estudos, viria a ser a bola da vez ao demonstrar poderes mediúnicos. Era Michel, passado à História como Nostradamus. Toda a histeria em torno dele começa a partir de uma análise mística de As Profecias – principal obra do vidente, publicada em 1554, e que foi organizada em quadras de cem (centuries). Tais profecias são passíveis de críticas pela ocorrência de ambiguidades em suas linhas, além da inexistência de bases históricas e geográficas confiáveis. Vejamos o que diz a Quadra 26.

“O grande homem será abatido durante o dia por um raio
Uma má ação, anunciada pelo portador de uma petição.
De acordo com a previsão, outro cai durante a noite.
Conflitos em Reims, Londres, e parte em Toscana.”

Para Erika Cheetham, “as primeiras três linhas podem ser aplicadas ao assassinato dos dois irmãos Kennedy.” Henry C. Roberts, por outro lado, associa a profecia à chegada de Hitler a Checoslováquia. “O assumir da Checoslováquia por Hitler, a renúncia do presidente Benes, as dissensões sobre a matéria entre a França e a Inglaterra, e o terrível aviso dessa traição, são todas extraordinariamente delineadas nestas profecias.” Semelhante ambiguidade ocorre em praticamente todas as quadras de As Profecias. Na 37, que alguns associam ao assassinato do presidente Kennedy, Roberts atribui a profecia a Luís XVI. São ambiguidades como essas, acrescidas de uma série de erros históricos e geográficos, que alguns autores, como o Dr. Robert Morrey, desfere ataques mortais a Nostradamus. “Quando se examina com cuidado as poucas previsões em que Nostradamus menciona datas especificas, na maior parte falha em prever eventos futuros.”

A descoberta, em 1994, de um manuscrito datado de 1629 e atribuído a Nostradamus reacendeu o debate acerca das profecias apocalípticas. Há sete imagens que, segundo alguns, seriam chaves para a compreensão do fim do mundo. No entanto, se eventos simples, como menções a cidades, datas históricas, locais geográficos, não tiveram um cumprimento real ou preciso, o fim do mundo também não deve passar pelo crivo dos especialistas. Morrey foi certeiro ao numerar uma série de erros proféticos de Nostradamus, como a que indicava que em 1792 o Catolicismo Romano sofreria uma intensa perseguição. De que maneira, então, poderíamos associar o Livro Perdido de Nostradamus com o fim do mundo, quando boa parte de suas profecias não se cumpriram, e das poucas que parecem descrever situações históricas, as ambiguidades predominam? Quem não se lembra, por exemplo, da gafe profética da virada do milênio? Os discípulos de Nostradamus haviam previsto que o mundo acabaria entre agosto e dezembro de 1999. Nada aconteceu. O churrasco estava a salvo, bem como as férias na praia. Nada de cataclisma. Nada de bug do milênio. Nada de histeria em massa.


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Igreja Dividida, 
as fragmentações do Catolicismo Romano
por Johnny Bernardo, do INPR Brasil

É domingo, faz 24 graus em Itapecerica da Serra (SP), o Pe. Osmar de Carvalho atravessa a nave da Igreja com um incensário nas mãos, sobe ao altar e pede que os fieis se levantem para a prece inicial. Juntamente com o pároco, os 200 participantes pedem a Deus perdão por seus pecados e em seguida cantam Glória a Deus nas alturas. Após a primeira e a segunda leitura de trechos da Bíblia, os fieis são conduzidos ao altar para a celebração da Eucaristia. Homens, mulheres, adolescentes participam do pão e do vinho. Por fim, o padre invoca as bênçãos de Deus e despede-se da assembleia.

Essa poderia ser uma missa católica tradicional, não fosse o fato de que a Capela de São Miguel e Todos os Santos estivesse localizada no complexo da Fundação Centro Teosófico Raja (uma espécie de “Gnose Cristã”) e fizesse parte também da Igreja Católica Liberal. Dirigida pelo Monsenhor Marcelo Rezende, a ICL foi fundada em 1916 (Londres) e afirma ser uma extensão da Igreja Vétero-Católica da Holonda, a qual se separou de Roma no século XIX por discordar da promulgação do dogma da Infabilidade Papal. No site da ICL Brasil, encontramos a seguinte informação.

“Pontos essenciais sobre a Igreja Católica Liberal

- Ela é uma Igreja Cristã, uma Comunidade de clérigos e fieis fundada em 1916 cuja sucessão apostólica, válida e reconhecida, deriva-se da Igreja Velho Católica da Holanda.

- Não é uma Obediência da Sé Romana nem uma Igreja Protestante, sendo autônoma e auto-governada.

- Reconhece a existência da Sabedoria Divina, a Teosofia, a pré-existência da Alma e sua evolução por meio de manifestações cíclicas no mundo, regidas pela lei de harmonia e justiça divinas...”

A ICL é apenas uma dentre os milhares de denominações católicas independentes (cismáticas) existentes no mundo. No Brasil, pelo menos 70 denominações se dizem independentes administrativa e teologicamente da Igreja Católica Apostólica Romana.

A existência de igrejas e associações independentes do Vaticano (sem mencionar as disputas internas, como as conhecidas entre tradicionais e carismáticos, adeptos do Opus Dei e jesuítas, conservadores contra liberais) põe em cheque uma vez por todas a teoria de que a ICAR seria “una” e a “verdadeira” Igreja de Cristo. Na verdade, é a ICAR a que mais possui placas e grupos cismáticos no mundo. Neste capítulo veremos quem são, como e por que surgiram inúmeros grupos cismáticos a partir do Catolicismo Romano. Antes disso, convém conhecermos um pouco sobre a história da ICAR e os primeiros problemas enfrentados após 385 d.C.

Os primórdios da Igreja Católica Apostólica Romana

A ICAR cita o ano de 33 d.C. como a data de sua fundação. Isso se deve a ideia de que Pedro teria sido o primeiro papa a quem Jesus entregou as chaves dos céus e da terra. É a sucessão apostólica, invocada tanto pela Igreja Romana, como pelas igrejas católicas cismáticas. No prefácio do livro Crenças, religiões, igrejas & seitas: quem são? De Estevão Tavares Bittencourt, o Dom Antonio Afonso de Miranda faz a seguinte observação.

“Deus, sapientíssimo, não pode ser o autor de tantas religiões ou crenças. No mínimo, são ilusões ou enganos de interpretação da fé. Tendo Ele se revelado na “plenitude dos tempos” (Gl 4,4) em seu Filho Jesus Cristo, só o que Cristo transmitiu aos apóstolos e o que se herdou destes numa sucessão ininterrupta Igreja Católica tem foros de verdade revelada, portanto digna de fé”. [1]

No mesmo prefácio o autor também faz udo do credo católico para validar a ideia de que a ICAR é a “verdadeira” e “única” Igreja de Cristo.

8. Nossa fé católica tem, assim, um ponto fundamental de apoio: a sucessão apostólica. Para validade do ministério humano-divino exercido dentro da Igreja instituída por Cristo, deve haver um elo histórico de sucessão aos apóstolos; onde se rompeu este elo, cessou o ministério legítimo e a ligação com o Senhor que salva. É o caso das nossas irmãs igrejas ditas “cristãs”, porém não-católicas, porque não são apostólicas.

9. Por isso, cremos que a união à Igreja Católica, efetivamente somente através da sucessão dos apóstolos, é garantia ordinária de remissão dos pecados, de vida em graça e penhor de salvação”. [2]

Diferente do que afirma o Catolicismo Romano, a Igreja fundada por Jesus e posteriormente difundida por seus discípulos e apóstolos, não possui qualquer relação com o Catolicismo Romano. Ou seja, é impossível estabelecermos qualquer conexão entre a ICAR (pelo menos na forma como se apresenta hoje) com a Igreja fundada por Jesus. Na verdade, não existe uma data específica que poderíamos indicar como o ponto inicial da ICAR, mas sim um processo gradual de paganização que culminaria com a formulação do que hoje conhecemos como Igreja Católica Apostólica Romana. No entanto, alguns autores propõem o ano de 385 d.C. como a data em que a Igreja começa a caminhar para o secularismo e paganismo. Neste ano, o bispo Teodósio decretou o cristianismo como a religião oficial do Império Romano e ordenou que todos os pagãos se convertessem à nova religião. Como consequência, a Igreja (até então pura e cristã) entra em um processo acelerado de paganização, com a introdução de elementos do culto e das crenças pagãs e mitológicas.

A origem do termo “católica”, aplicado à Igreja Romana

Sete anos antes do decreto de Teodósio, os bispos que se reuniram para o Primeiro Concílio de Constantinopla (381 d.C) deram à religião que se desenvolvia a designação de “católica”. De origem grega, a palavra católica (καθολικος, lê-se katholikos) significa “geral” ou “universal”. Era essa a primeira tentativa de “unificar” o cristianismo em torno de um organismo central. Segundo um verbete da Wikipédia, o termo catolicismo é “usado geralmente para uma experiência específica do cristianismo compartilhada por cristãos que vivem em comunhão com a Igreja de Roma.”

É a partir do Primeiro Concílio de Constantinopla que começa a ser difundido o conceito de que a Igreja Católica é indivisível, ou seja, para ser cristão é necessário estar em comunhão com a Igreja de Roma. No Credo Niceno-Constantinopolitano ou Símbolo Niceno-Constantinopolitano, encontramos a seguinte confissão de fé:“Creio na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.”

Para os católicos romanos, essa quádrupla descrição da Igreja a distingue de qualquer outra religião do mundo – porque, segundo creem, ela teve origem com Jesus e os primeiros apóstolos. Acusam as igrejas evangélicas de terem se dividido em inúmeras denominações, de não possuírem um único pastor e de não serem apostólicas.


Os primeiros cismas na Igreja

Pouco tempo depois da formulação do Credo Niceno-Constantinopolitano, que dava à Igreja de Roma exclusividade na condução dos fieis, começam a surgir os primeiros cismas (divisões) na Igreja. Antes da divisão ocorrida em 1054, que veremos adiante e com mais detalhes, a Igreja se viu diante das primeiras contestações ao seu governo e/ou patriarcado, pondo por terra o conceito até então difundido de que a Igreja é “una”.

Nestorianos

Encabeçada por Nestório (patriarca de Constantinopla de 428 a 431 d.C), os seguidores da doutrina - segundo a qual em Jesus havia dois “eus” ou “duas” pessoas: uma divina, com a sua natureza divina, e outra, humana, com a sua natureza humana -, se rebelaram contra a Igreja após o Concílio de Éfeso (431 d.C.), formando o que seria o primeiro grupo cismático conhecido.

Boa parte das ideias de Nestório foram tomadas de Teodoro de Mopsuéstia, quando de seus estudos na Escola de Antioquia. Condenado em 431 por defender, entre outras coisas, que Maria não era mãe de Deus (“Cristotokos” mãe de Cristo, em oposição ao “Theotókos”, mãe de Deus, na visão católica tradicional), se refugiou em um mosteiro, onde viveu o resto da vida. Com o tempo, o Nestorianismo passou a ser a posição oficial da Igreja do Oriente. Apesar de alguns terem regressado à fé católica, um pequeno número de seguidores resistem em países como China, Índia, Irã e Estados Unidos. A Igreja Assíria do Oriente é a principal das remanescentes nestorianas.

Monofisistas

Alguns anos mais tarde, Eutyches de Alexandria propôs uma doutrina contrária à defendida por Nestório. Segundo ele, em Jesus haveria um só “eu” e uma só natureza (a divina), uma vez que a humanidade teria sido absorvida pela divindade. Enquanto seu oponente defendia a distinção das naturezas humana e divina (sendo duas naturezas e/ou pessoas diferentes), Eutyches afirmava a completa união das naturezas – daí a origem do termo “Monofisismo” (do grego μονο = único).

A ICAR concluiu que a doutrina de Eutyches seria ainda mais perigosa do que a de Nestório. Condenado como herege pelo bispo Eusébio de Dorileia e, posteriormente, pelo Concílio de Calcedônia (451), Eutyches enviou cartas a alguns dos principais bispos da Igreja e ao Papa Leão I, nas quais pedia ajuda. No entanto, a excomunhão lançada sobre ele foi considerada irrevogável.

Após a morte de Eutyches (em 456 d.C.), a Imperatriz Eudóxia Aelia aderiu ao monofisismo e o fez conhecido na Pérsia. Outro que contribuiu para a divulgação da doutrina foi Jacob Baradaeus, que no século VI incentivou a união das várias vertentes monofisistas, culminando com a criação da Igreja Ortodoxa Siríaca. Grupos similares existem ainda hoje no Egito, Etiópia, Síria e Armênia, constituindo uma massa de quase cinco milhões de adeptos.

Valdenses

No século XII um movimento denominado “valdense” (fundado por Pedro Valdo, comerciante de Lyon) foi perseguido pela Igreja por defender o direito de cada fiel de ter a Bíblia em sua própria língua. Por essa mesma época havia sido estabelecida – no Concílio de Verona (1186 d.C.) – a “Santa Inquisição”, razão pela qual os valdenses se reuniam em grutas ou na casa dos familiares.

Quando começou (por volta de 1180 d.C.), Pedro Valdo vendeu seus bens, deu o dinheiro aos pobres e passou a viajar e pregar a Palavra. O que o inspirou à busca do conhecimento e da salvação em Cristo, foi a leitura de Mateus 19.21, texto esse apresentado por um teólogo que havia sido chamado às pressas para auxiliá-lo em sua busca da verdade.

Encantado com a mensagem do Evangelho e sabedor de que a ICAR determinava que a Bíblia fosse lida apenas em Latim, Pedro Valdo encomendou uma tradução da Bíblia para a linguagem popular. Acabou excomungado, mas suas ideias se espalharam: não jurar, recusar a pena de morte, a hierarquia da Igreja e a crença em purgatório, indulgências e veneração dos santos etc. [3]

Boa parte das ideias defendidas por Valdo foi reunidas na Confissão de 1120 d.C., considerada como a “mais antiga confissão de fé protestante”. Apesar de algumas diferenças com os credos de Lutero e Calvino, a confissão valdense fazia uma explícita condenação da liturgia católica (arts. 10 e 11), bem como os sacramentos (art. 8). Os valdenses consideravam como válidos apenas os sacramentos do batismo e ceia do Senhor.

Albigenses

Também conhecido como “Catarismo”, o movimento dos albigenses surgiu por volta do século XII, em Albi (sul da França), e pregava a existência de um deus do bem, criador da alma, e de um deus do mal, criador do corpo. Proibia o casamento, para evitar a procriação e legitimava o suicídio. 

Considerados hereges pelo Concílio de Tours (1163 d.C.), os albigenses foram duramente perseguidos pela Igreja. Em Minerva, 140 discípulos foram condenados à fogueira porque rejeitaram o catolicismo como religião “una” e “verdadeira”. Pelo menos 50 mil albigenses foram torturados e mortos pela cruzada conclamada pelo Papa Inocêncio III.



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Tempos do Fim, 
a perigosa seita Creciendo en Gracia 
por Johnny Bernardo, do INPR Brasil

Augusto nasceu na Barra da Tijuca, tem 26 anos, estuda engenharia, namora com Mariane há cinco anos e frequenta o Ministério Internacional Creciendo en Gracia há pouco menos de um ano. No entanto, o que mais chama atenção nesse jovem carioca de classe média é uma tatuagem em seu braço esquerdo com os números 666. Ele é apenas um entre os milhares de jovens que circulam pela sede nacional, na Rua Barão do Bom Retiro, 88, Engenho Novo, RJ. Ali funciona, além da igreja mãe (diga-se “Centro Educativo”) um departamento de envios e o escritório administrativo. As reuniões acontecem aos domingos, às 10h e as sexta-feiras, às 19h30.

O Ministério Creciendo en Gracia é conhecido pela cruzada que promove contra a Igreja Católica, a qual chama de “Igreja de Satanás”. São constantes os manifestos realizados em eventos católicos de peso, como o ocorrido em maio de 2007, quando cerca de cinquenta discípulos de José Miranda foram hostilizados após um protesto realizado em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo, ocasião em que o Papa Bento XVI realizou uma missa para mais de 40 mil pessoas. Protestos semelhantes acontecem em Miami e em pelo menos outros 29 países onde o MICG mantêm centros educativos.

Os católicos não são as únicas “vítimas” do MICG: há uma corrida igualmente difamatória contra as igrejas evangélicas. Nós somos vistos, na melhor das hipóteses, como “inimigos” de Jesus Cristo homem e “apóstatas” do Evangelho. Há casos de igrejas que foram apedrejadas por discípulos de Miranda e outras que acabaram por ser vendidas para o próprio MICG. Essa é uma das marcas da organização criada pelo portoriquenho: ser agressiva e proselitista ao mesmo tempo. É devido a isso que em alguns países, como Honduras, Guatemala e El Salvador, José Miranda foi proibido de entrar por ser considerado um “agitador” social.

Para garantir que a mensagem de Miranda chegue a todas as pessoas, de todos os cantos do mundo, o MICG montou uma rede de comunicação internacional encabeçada pela emissora Telegracia, com sede na Colômbia e transmitida para o mundo pelo satélite NSS – 806. A rede é composta também pela Netgracia.com, além de mais de 287 programas radiofônicos e uma hora na TV 24 (em espanhol). Paralelamente, os seguidores da seita mantêm milhares de comunidades no Orkut, contas no Twitter e Facebook, blogs e sites. É através desses canais e outros mais que José Luiz de Jesus Miranda transmite a ideia de que o número 666 é um sinal de prosperidade, a crença de que o diabo, o pecado e o inferno não existem e que faltam poucos dias para a “transformação” de Jesus Cristo homem.

Fundador

José Luiz de Jesus Miranda nasceu em 22 de abril de 1946, em Ponce, Porto Rico. Filho de Ana Luiza Miranda e José Antonio de Jesus, teve uma infância conturbada. Criado em meio à extrema pobreza, ao completar 14 anos enveredou pelo caminho da heroína. De um jovem tímido e gordinho, Miranda se transformou em um dos delinquentes mais temidos de Ponce. Por pouco não morreu, quando de um confronto com traficantes, que o espancaram e o abandonaram em um galpão.

Ao ser pego praticando um furto, foi preso e somente deixou o cárcere ao completar vinte anos de idade (1966). Foi durante esse período que José Miranda disse ter tido seu primeiro "contato" com o Evangelho. Após deixar a cadeia, se mudou para os EUA e se inscreveu em um programa evangélico chamado “Desafio Jovem”, quando lhe foi oferecida uma oportunidade de salvação e vida em Cristo. Passado um tempo, Miranda se "converteu" ao pentecostalismo e mais tarde fez-se membro da Igreja Batista. Antes disso, passou pela Igreja Católica e religiões nativas de Porto Rico.

Obcecado por pesquisas escatológicas, dedicou parte do seu tempo ao estudo do Apocalipse. Após longas noites de reflexão, chegou à conclusão que João não compreendeu o verdadeiro significado da profecia. Ao consultar o mapa mundi, verificou que a cidade em que nasceu estava exatamente sob a tatitude 66,6. A partir de então, começou a desenvolver a ideia de que a marca da besta estaria de alguma forma relacionada a ele.

A revelação

Segundo Miranda, a sua trajetória messiânica teria começado em 1973, em Massachusetts, EUA, quando dois anjos (ou pessoas, segundo algumas versões) aparecerem e revelaram que ele seria “ungido” para o ministério e seria a testemunha da vinda de Cristo ao mundo. Ele revela.

"'Pai, eu ouvi uma voz que o Senhor está vindo hoje à noite.

Eu disse: O quê? Eu estava com medo, você sabe. Então eu disse: Está com medo?

Ele disse, não, não. Eu só ouvi uma voz que o Senhor está vindo hoje à noite.

Então eu levei meu filho para o quarto e o coloquei na cama e depois fui para meu quarto, quando dois anjos apareceram e disseram a mim: 'O Rei do dos reis e o Senhor dos senhores, Ele está chegando hoje à noite para ungi-lo para o ministério. Eu pensei que ele ia me dar um presente, mas de repente ele começou a me dizer coisas que eu nunca havia ouvido falar.”

Trinta anos depois José Miranda se revelaria como a terceira manifestação de Jesus. Algo que ele pensava desde 1973, mas que por temor ainda não havia revelado. Apesar de possuir tal convicção, ele se considerava superior ao Jesus do Novo Testamento. Por essa mesma época ele fez uma de suas mais críticas afirmações: “Eu sou maior que Jesus... eu ensino melhor que ele”.

Obviamente, tal declaração é rechaçada pelos adeptos da seita que afirmam que seu líder jamais disse ser Jesus ou maior que este. O reconhecimento – da divindade de Miranda – se deu, segundo eles, pela própria Igreja Creciendo en Gracia. Não é o que diz um trecho extraído de uma biografia de José Miranda (em espanhol e disponível apenas na Internet).

“El sábado 26 de febrero del 2005, durante la Convención Mundial de Creciendo en Gracia em Miami, José Luís declaró públicamenteque él era Jesucristo. Esa tarde, más de mil quinientos “bendecidos” bailaban y cantaban animadamente cuando una voz cavernosa interrumpió la música. -¡Bendecidos!- rugió la voz.” [1]

Existem outras questões não explicadas pelo MICG e que tem sido uma das causas da deserção de inúmeros seguidores. O que poucos sabem – e que a liderança em Miami tenta ao máximo que pode esconder– é que José Miranda já havia se apresentado ao mundo como a reencarnação do apóstolo Paulo. Isso ocorreu 15 anos após a primeira revelação e oito anos antes da feita em Miami, quando José Miranda afirmou ser a terceira manifestação de Jesus.

Há uma blindagem no sentido de impedir que tais informações cheguem ao conhecimento de brasileiros e colombianos, povos alvos no trabalho de proselitismo na América do Sul. Isso mostra, uma vez mais, que o MICG foi criado com base em fatos contraditórios e que desqualificam sua missão e existência na terra. Pelo o que sabemos dos evangelhos, Jesus jamais se confundiu no que dizia respeito a sua relação com o Pai e missão no mundo. Miranda parece ser um cristo confuso, porque ora se identifica com Paulo, ora com Jesus.

Processos judiciais

Por conta de seus dois primeiros divórcios e atrasos no pagamento das pensões (foi casado com Nydia e Josefina Torres), José Miranda teve de comparecer por inúmeras vezes aos tribunais da Flórida. Mesmo após o pagamento de dois milhões de dólares a Josefina – decorrentes do processo de divórcio - Miranda foi alvo de mais um processo movido pelo juiz Roberto Pineiro que determinou o pagamento dos cinco meses de pensão atrasados, num montante de 72.000 dólares, devidos a Josefina. Insatisfeito com a determinação judicial, José Miranda se isentou por um tempo de Miami. Em resposta, o juiz Roberto Pineiro determinou a desapropriação de alguns bens de Miranda, como uma casa em Houston para saudar a dívida.

José Miranda também é investigado por ter supostamente “desviado” recursos do MICG para adquirir inúmeras propriedades, como dois apartamentos e um prédio no valor de 60 milhões de dólares na Colômbia, uma casa à beira – mar no sul da Flórida e uma mansão no valor de 80 milhões de dólares em Houston.

Além das propriedades (algumas em seu próprio nome e outras em nome de terceiros), Miranda possui uma coleção de relógios Rolex, uma frota de carros de luxo (que inclui BMWs), além de receber um salário de US$ 150, 000 pago pelo MICG que também custeia os 350, 000 dólares gastos anualmente em segurança.

O Creciendo en Gracia

Há uma fase da vida de José Miranda pouco conhecida fora dos círculos do Creciendo en Gracia. Ele tinha por volta de trinta anos quando decidiu regressar para Porto Rico. O autor da biografia chama essa fase de uma das “mais críticas” do portoriquenho, mas também uma das que mais contribuiu para o estabelecimento dos alicerces do que mais tarde seria o Ministério Internacional Creciendo en Gracia.

De volta a Porto Rico, Miranda organizou uma pequena comunidade religiosa em uma casa no subúrbio de Ponce. Cerca de vinte pessoas participavam das reuniões. Tudo parecia caminhar bem até que ele decidiu revelar parte de suas convicções ao pequeno rebanho. Não conseguindo impor suas crenças ao grupo – dentre as quais a ideia de que o pecado e o diabo foram destruídos na cruz e que somos deuses – Miranda entrou em um estágio de profunda depressão. A crise financeira que enfrentava naqueles dias também contribuiu para acentuar o quadro.

Antes que a depressão o consumisse, Miranda disse ter ouvido uma voz que ordenava que ele fosse para Miami, pois lá “havia” uma ponte para o mundo. Convicto de que o caminho estaria aberto, Miranda deixou mais uma vez Porto Rico e se mudou para Miami. Mesmo sem recursos, aluga 15 minutos em uma rádio AM onde por três semanas ataca o que ele considerava “falso evangelho”. Satisfeito com os resultados obtidos, Miranda aluga um armazém em Hialeah e convidou cerca de 300 pessoas para um seminário de final de semana. Para seu espanto, pelo menos 500 pessoas compareceram e foram testemunhas do nascimento do Creciendo en Gracia.



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A Igreja Sinos de Belém é uma das poucas igrejas cuja história não é plenamente conhecida. Seita? Movimento Contraditório? Igreja Evangélica? São perguntas cujas respostas podem variar de acordo com o ponto de vista de cada leitor ou estudioso da religião. O uso do véu, a batina, a quipá (pequeno chapéu em forma de circunferência), o celibato etc., são aspectos que chamam atenção e que despertam a curiosidade sobre que tipo de igreja é o Sinos de Belém. Há quem acuse o SBMP (Sinos de Belém Missão das Primícias) de ser um meio caminho entre o catolicismo e a Congregação Cristã no Brasil. Fundada em 1/6/1971, no bairro do Cambuci (SP), pelo missionário Josias J. Souza, o SBMP possui 200 templos espalhados por dez estados da Federação – o número de adeptos não é revelado. No interior de SP funciona, em uma área de 30 alqueires, o “Monte Santo”- uma espécie de local sagrado do SBMP que conta com uma igreja, trilhas e até mesmo um poço chamado pelos adeptos de “Tanque de Betesda” onde são r...

A Igreja Local e o confronto com The God-Man

Idealizado por Watchman Nee e Witness Lee, o modelo da Igreja Local chegou ao Brasil em 1959. Dezesseis anos depois Dong Yu Lan passou a responder, desde então, pelas atividades da IL na América do Sul. No mesmo ano, fundou a Editora Árvore da Vida e, nos anos seguintes, o jornal Árvore da Vida, a Estância Árvore da Vida – localizada em Sumaré, São Paulo, e que possui um auditório com capacidade para 10 mil pessoas – e a Expolivro Árvore da Vida – um ônibus – livraria que percorre o Brasil e países vizinhos divulgando as doutrinas da IL. Após sua visita ao Brasil, em 1984, Witness Lee participou de uma reunião nos EUA onde apresentou um breve relatório do crescimento do modelo de igreja no país. Segundo ele, apesar de mais de 25 anos de atividade no Brasil, as igrejas possuíam não mais que mil frequentadores. Lee associou o baixo crescimento ao livro The God-Man (1981), onde Neil T. Duddy faz duras críticas ao modelo da Igreja Local, acusando-a de manipular financeiramente seus segui...